rede 100canais de jornalismo cultural independente

Marcelo Lopes

Impressões digitais, táteis e sensoriais da Teia 2007

A Teia 2007 terminou e algumas avaliações ainda precisam de tempo para ser maturadas. Algumas sensações também.

A primeira avaliação tem a ver com o lugar histórico que o evento ocupa na discussão sobre cultura. Nos últimos anos tem sido perceptível que sua condução tem saído mais e mais da esfera de uma atitude verticalizada (governamental, sobretudo), que outrora ditava aquilo que deveria ou não ser levantado como tema central "para o bem da cultura nacional". Atualmente, ela tem se dirigido para a possibilidade mais palpável de uma multiplicidade de vozes, advindas de todos os pontos do país e invadindo (por convite aberto, o que é mais importante) os espaços comuns, os campos institucionais e as políticas para a cultura.
A Teia, não apenas pelo teor de suas discussões e manifestações, mas, sobretudo, pela presença maciça de representações dos quatro cantos do Brasil, apresentou um painel mais amplo do país, que não mais se limita à desproporcional presença do eixo RJ-SP como produtores de iniciativas mais viáveis e/ou notórias.

Em segundo lugar, cumpriu um papel constatatório: a força dos pontos de cultura, das articulações, dos prêmios envolvidos e da publicização do que vem sendo feito ao longo do território literalmente abrem vias de diálogo direto e traçam redes de informações e troca de experiências extremamente ricas e profícuas. A Teia, como esse laço estabelecido, traçou (e ainda faz isso) seus primeiros fios, que pelo peso de sua própria existência, tendem a se tornar mais fortes e resistentes e lhes propiciar uma melhor e maior existência manifesta.

E por fim, algo difícil de mensurar. Algo que nos cinco dias da Teia não era possível colocar em palavras pelo risco de reducionismo: a sensação de estar em plena apresentação de nomes consagrados da MPB e sentir-se contemplado ao ver de forma inusitada a presença do reisado que invadia o público - vinda dos bares circunvizinhos - acrescentando uma percussão contagiante de figuras coloridas ao ritmo já nordestino em plena praça mineira; ouvir de Ariano Suassuna um discurso nacionalista (mesmo contestando-o em alguns pontos) e perceber que, longe se de ser ufanista, sua paixão é mais do que conscientizadora do que esquecemos muitas vezes no fundo do nosso orgulho nacional e nos identificamos com um prazer quase menino; lembrar que os adolescentes do “Nós do morro”, são tão sonhadores e talentosos quanto os adolescentes de norte a sul do país e voltar para casa estimulado a ver isso se repetir novamente em muitos outros lugares; já estar cansado da maratona cultural e não ter sequer coragem de parar porque cada minuto que se perde, é um mundo que se deixa passar; fechar os olhos em reuniões, palestras ou mesas-redondas temáticas, ouvindo detalhadamente os sotaques mais diversos e se sentir em casa com cada um deles.

A Teia 2007 foi de fato uma experimentação gratificante. Mas não única. Ainda bem. Espero nos vemos em 2008.

Tags: teia2007

Compartilhar

Responder esta

Respostas a este tópico

Que não seja a única então! Concordo!

Responder esta

RSS

© 2009   Criado por Carlos Gustavo Yoda no Ning.   Crie Sua Rede Social

Badges  |  Relatar um incidente  |  Privacidade  |  Termos de serviço