rede 100canais de jornalismo cultural independente

TEIA é o maior encontro da diversidade cultural no Brasil e reunirá, em Belo Horizonte, os Pontos de Cultura participantes do Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania. Cultura Viva, do Ministério da Cultura. Terá centralidade, este ano, na relação entre Cultura e Educação, informa a página inicial do evento: www.teia2007.org.br.

Estão sendo preparados comunicadores para realizar uma cobertura midiática, cuja atividade tem por nome Jornalismo Cultural Independente, da qual estou participando, com uma centena de pessoas de vários locais do país, predominando as de Belo Horizonte e de Minas: www.100canais.org.br e www.agenciateia2007.org.br.

Esta proposta lembra-me a Casa Macunaíma, da qual participei durante o I Fórum Social Brasileiro (BH-MG), Fórum Mundial de Educação (SP-SP) e Fórum Social Brasileiro de 2005: http://www.abn.com.br/artheitor66impressoes.htm. A diferença está no fato de que lá, não tínhamos dois dias de reflexão antes do evento, nem uma equipe destinada especificamente para preparar-nos. Também éramos mantidos, quase todos, acampados, dormindo e se alimentando no mesmo local, geralmente uma escola pública, próxima do fórum que cobríamos. Fica esta sugestão para a Teia 2008.

Esta construção de um relacionamento e de uma consciência coletiva sobre a cobertura da Teia 2007, foi realizada na Casa do Conde, um dos melhores espaços culturais de Belo Horizonte. No salão principal a nós destinado, pendia um gigantesco lustre em forma de cone invertido, feito com garrafas PET brancas transparentes, de fazer inveja a qualquer mansão da cidade. No salão ao lado, havia outro, menor, como pirâmide invertida. Algo tipo insetos gigantes, de metal e vidro, voavam sobre nós, no espaço destinado aos computadores. Esta criatividade e a estética produzida refletiam a busca de uma reversão dos padrões de comunicação e a transparência de nossa proposta. Parabéns aos recicladores e decoradores!

Dias 03 e 04/11/2007, foram realizadas várias atividades, em que buscávamos nos aprofundar e construir coletivamente o significado deste trabalho e o público alvo. Também houve pequenas desconferências (“Open space”, onde todo mundo tem mais espaço para participar e propor temas que nos eventos tradicionais), visando maiores aprofundamentos sobre as técnicas e conceitos mais abstratos, com os quais estávamos mais envolvidos.

Enquanto trocávamos idéias em grupo, um desenhista registrava nossos melhores momentos, tanto reproduzindo o que via, quanto gerando caricaturas com o que ouvia dizermos, num cartolinógrafo (“flip-chart”), o que, após digitalizadas, eram projetadas num telão.

Na escolha das palavras que representavam a expectativa dos participantes em relação a esta cobertura, pude observar que não foram mencionadas ruptura, revolução, transformação e outras análogas a estas. Lamentavelmente, cheguei quando esta atividade estava terminando. Após um ano fora de Belo Horizonte e morando em Porto Alegre, precisava matar a saudade do Nerimar, diretor da Rádio Favela, com o qual fiquei conversando numa sala próxima até me dirigir ao salão principal onde transcorria o início dos trabalhos.

Assim, durante os trabalhos, procurei demonstrar que a visão de mundo que temos é que vai determinar o tipo de jornalismo que faremos, mais ou menos conservador. Concentrei-me em defender a tese de que há uma luta de classes, uma dominação dos meios de comunicação e do Estado por parte dos mais ricos, não uma República, mas uma Reparticular ou Repútrida. Estão controlando a mente dos mais pobres, os trabalhadores, de tal forma a extorquir-lhes mais impostos, reduzir-lhes o salário e privilegiar a classe mais abastada em receber seus benefícios. Qualquer ação jornalística que não parta deste princípio atua no sentido contrário aos interesses da maioria da população mais pobre, a qual procurei colocar como público-alvo de nosso trabalho.

Defendi que, mesmo em cobertura de eventos populares como o futebol, poderiam ser fornecidas informações sobre assuntos mais profundos, comparando, por exemplo, num jogo entre Brasil e Argentina, dados como a diferença do número de bibliotecas em cada um destes países. Num jogo com Israel, poderia ser informado que, mesmo jamais tendo ganhado uma Copa do Mundo, eles dominam os EUA (os quais também perdem para nós frequentemente) e, através daí, tornaram-se os campões do mundo em economia, constituindo a maioria das pessoas mais ricas do planeta, as quais devemos uma fortuna impagável.

Durante as atividades desenvolvidas, tentávamos sintetizar nosso ponto de vista e agregar o conhecimento dos demais. Seguem algumas das propostas que memorizei, não sendo conclusão geral do grupo, mas parte do debate realizado, numa tentativa de síntese:

É impossível um jornalismo totalmente independente. Todavia, quanto mais independente uma pessoa, mais independente será o jornalismo por ela produzido.

Um jornalismo será mais independente na medida em que ele depende de um número cada vez maior de pessoas para ser produzido. Jornalismo interdependente.

A independência jornalística pode ser aumentada, na medida em que há interação do autor com seu recipiente (aquele que recebe), retro-alimentando a comunicação da idéia original, num processo dialético.

O verdadeiro jornalismo mostra o que os poderosos querem esconder. O resto é assessoria de imprensa, propaganda, manipulação ou mero diletantismo filosófico. (Esta é minha, para a qual encontrei algumas discordâncias!)


Houve um bom debate sobre a substituição do termo independente por alternativo ou autônomo.

Conforme Robson Bomfim, da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, representante Regional do Estado de São Paulo, estará sendo realizado, em paralelo, o I Fórum Nacional dos Pontos de Cultura. Considera que houve uma tardia participação dos pontos na construção da Teia, privilegiando a contratação de empresas de produção cultural. Mesmo reconhecendo a mega-estrutura construída como de valor inquestionável, defende que, caso tivesse sido democratizada a organização do evento, a enorme capacidade criativa, executiva e o conhecimento da realidade social de suas comunidades, por parte dos PC, o resultado seria muito mais legítimo e eficaz. O objetivo deste fórum é, quando terminar a Teia 2007, sair fortalecido como movimento social e cultural, articulando uma agenda de atividades para o próximo ano, democraticamente construída com os 600 delegados oriundos de todas as regiões do país.

Tags: agência, fórum, independência, jornalismo, teia

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Respostas a este tópico

Cara Ariane
Grato por teus comentários calorosos!
Se quiseres conhecer outras manifestações de meu trabalho, visite www.heitor.fr.fm, www.abn.com.br, www.mixx.com.br ou pesquise na grande rede "heitor reis". (Tenho alguns homônimos...)
Abraços
Heitor

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