Se pudesse mandar em alguma coisa, eu decretaria: todo brasileiro tem o dever de assistir a uma aula-espetáculo de Ariano Suassuna. E tenho dito.
Com toda simplicidade que se espera de um típico nordestino, Suassuna começou sua aula justificando sua voz rouca e fraca, seu pigarro constante, seu traje típico. E por quase duas horas conduziu com leveza e bom humor uma conversa com um público encantado, revelando assim o quão espirituoso é esse nosso artista.
Acredito que Ariano tenha descoberto a fórmula ideal para construir a auto-estima do povo brasileiro. Se um psicanalista ou algum interessado no assunto lá estivesse, se assustaria com as reações que essa conversa fora capaz de produzir. Saímos todos, no mínimo, orgulhosos de sermos um povo "alegre, musical e dançarino". Mais do que dramaturgo e romancista, ele assumiu para si a função de estudar a cultura brasileira (já foi professor de História da Cultura Brasileira na UFPE), valorizá-la e apresentá-la para o seu povo.
“Se todo mundo exercesse suas atividades como Robinho joga futebol”, foi a primeira lição passada. O nosso futebol deve ser usado como exemplo para todas as outras formas típicas de cultura brasileira. Nossa cultura é rica em manifestações pequenas e peculiaridades de um povo que não perde sua alegria, apesar de todo o sofrimento que passa. E tudo isso já é digno de uma imensa admiração.
E não faltaram elogios a nós. À nossa humildade. Nossa unicidade. Nossa indisciplina. Nosso bom humor. Nossa alegria. Nossa cultura.
A nossa arte é mais do que um “episódio da cultura ocidental”. É a arte brasileira. Manifestação do povo. Arte alegre, colorida e simples.
Ariano criticou com ousadia e delicadeza a obre feita por Niemeyer. Uma obre sem cor, sem vida. É arte sim, mas não nos representa, segundo ele. Quem nos representa é Aleijadinho, Gabriel Joaquim dos Santos, J. Borges, Robinho, Daiane dos Santos. Mais do que representar o real, eles acrescentam uma pitada do que é brasileiro e assim fazem a nossa arte.
E finalizou afirmando que a cultura brasileira, em todas as suas manifestações, nasce com tipicidades locais mas torna-se universal por sua qualidade. E cada um de nós tem a responsabilidade de criá-la, mantê-la e propagá-la por todo o mundo, valorizando-a da forma que merece. A representação da cultura não precisa ser engajadamente política, mas pode sim representar o que pensa o seu autor.
Restou então a nós, espectadores, a esperança que ele reafirma:
O Brasil ainda se desconhece mas hoje já se assume como um país rico e profundo, com um povo capaz de fazê-lo acontecer.
Tags: cobertura, compartilhada, teia2007
Compartilhar
Você precisa ser um membro de rede 100canais de jornalismo cultural independente para adicionar comentários!
Entrar nesta rede social