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DISCUSSÃO X DEBATE SOCRÁTICO

Pensadores deixam seu legado a quem interessar possa. A gente examina e assimila, ou rejeita. Faz tempo que abandonei o hábito de avaliar as coisas e separá-las em dois arquivos, as certas e as erradas, porque entendi (aqui na minha maneira de ver) que isso não existe. Sei que existe para a maior parte das pessoas, e respeito, mas isso foi deprogramado do meu sistema, acho que por desuso. Hoje assimilo o que me falta para continuar construindo meu caminho e declino, agradecida, o que não me serve.

Provocar, sim, é induzir ao erro. Ao erro de responder, de debater e argumentar, tentar infiltrar uma idéia na cabeça de alguém, querendo que esse alguém veja as coisas como você vê. Isso é uma bobagem. Você diz o que pensa e quem toma conhecimento das suas avaliações, afina-se com elas ou não, compartilha com você ou não, acompanha sua trilha ou não. Ninguém convence ninguém de nada.

Digo mais: quem tem convicção de suas idéias, não as debate, nem tem necessidade de defendê-las. A busca pelo debate é um impulso causado pela incerteza, pela necessidade de afirmação de algo a cerca do que não se tem muita convicção, é um impulso movido pela inquietação da dúvida.

Exceção? Sim. O debate socrático. Este é o único debate que tem como base a dúvida consciente, a certeza de que nada se sabe, e o desejo de elaborar junto com o grupo escolhido algumas conjeturas. Essas conjeturas são apresentadas quase como um pedido de "convença-me do contrário", "desconstrua minha idéia", "apresente-me o seu ponto de vista"... Porque é o ponto de vista do outro o que me falta para que eu possa conhecer melhor o que há em volta. Um exercício de elaboração participativa, entre pessoas convidadas a dar sua contribuição para elaboração de algo maior do que apenas uma opinião. Os adeptos de Sócrates eram convidados a emprestar seus olhos para que todos pudessem ver através dos olhos uns dos outros e assim poder crescer. Coisa elegante, generosa e afetiva, movida pelo respeito e pela admiração daquilo que se opõe a mim, que é diferente de mim, o outro, o próximo, ou seja, tudo o que não sou eu.

Perde quem tenta transformar algo tão precioso, que é o outro, o diferente, o que não está contido em mim, o complementar, o que ainda me faltas, em uma réplica do conhecido, do manjado, do mastigado e digerido, um clone do eu. Este não cresce, não rompe suas limitações, não ultrapassa fronteiras e morre enterrado no próprio umbigo, não desperta, não vive, não ama.

♪♫☺ĞīĻđằ Ќѓąµșε☺♫♪

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